14/07/2009

O som, a sesta e a fúria de Mário Lima

Abaixo, segue um brilhante texto do amigo Claudio Leal, publicado no Terra Magazine, sobre uma bela figura. Tio Mário era uma pessoa especial, que foi companheiro de cela de meu pai, durante os anos de chumbo da ditadura (que alguns insistem em chamar de ditabranda) na penitenciária Lemos de Brito, BA.

Tive a oportunidade de conviver com Mario Soares de Lima em Brasília, durante quase 5 anos. Pessoa admirável e empolgante, de forte comprometimento com este país.

Certamente fará muita falta.

____________________________________________

Por
Claudio Leal

O líder petroleiro Mário Lima, vitimado aos 74 anos por um AVC, em Salvador, na sexta-feira (10), provou no sindicalismo o gosto épico da formação da Petrobras, das investidas pioneiras em território baiano ao mergulho cívico no Pré-sal. Afastado nos últimos anos das refregas diárias do Sindpetro (Sindicato dos Petroleiros da Bahia), o primeiro do setor no Brasil, do qual foi fundador, Lima guardava histórias à farta da era do sindicalismo brasileiro pré-1964, de JK a João Goulart.

Negro, prosa mansa, Mário Lima tinha acesso ilimitado aos gabinetes federais. Ele liderava o mais atuante sindicato de petroleiros – fonte de seus votos pelo PSB – e sabia amaciar radicais e pelegos; era “metade PSD, metade Coronel Reis”, define o jornalista e amigo Sebastião Nery, referindo-se ao chefe político de Glória (BA), cidade natal de Lima, às margens do Rio São Francisco.

Deputado federal constituinte na década de 80 (subia à tribuna com o capacete da Petrobras), Mário sustentou musculatura política até o golpe militar de 1964, quando foi preso e confinado na Ilha de Fernando de Noronha, em dependência próxima às dos governadores depostos Miguel Arraes e João de Seixas Dória.

A sede revanchista contra o sindicalista baiano não deixava de estar ligada ao máximo estreitamento de relações entre Estado e sindicatos. Jango permitia a Lima uma intimidade, um calor amigueiro, uma afabilidade, o que pode ser visto como uma artimanha do presidente-estancieiro, herdeiro incompleto de Getúlio Vargas. “Eu nem precisava bater na porta de Jango”, dizia Mário Lima.

Mas algumas vezes o ex-ministro Antonio Balbino bateu na madeira ao ver corroer a autoridade presidencial. Consultor-geral da República, Balbino ouviu um sindicalista dirigir-se ao Excelentíssimo Senhor: “Ô Jango, tu….”. Sentiu o ímpeto de raspar as paredes do Planalto ao ouvir outro visitante aconselhar Jango a não encaminhar um pedido ao consultor-geral: “Com esse cara estamos perdidos!”. Alvo da ofensa, Balbino aguardou a reprimenda de Jango, mas, ao sentir que esta não viria, tratou de soltar perdigotos e exigir respeito.

Mais cerimonioso nos lances de intimidade, Mário Lima liderou a campanha “Ou equipara ou aqui pára”, que exigiu o nivelamento salarial da Bahia com os trabalhadores do Rio e de São Paulo, em 1960. O governador Juracy Magalhães mandou cercar a refinaria de Mataripe, o centro petrolífero que lançava uma chama solitária nas noites imensas da Baía de Todos os Santos. Cobrindo a greve pelo Jornal da Bahia, Nery furou o cerco e testemunhou a coragem do “negro obâmico”.

De volta à redação, no Centro de Salvador, o jornalista político redigiu uma nota incendiária contra o governador baiano. “Juracy mandou a PM, que deu muitos empurrões. Ele dizia que não era mais o tenente com o revólver na mão, mas o general com o terço. Aí escrevi: Juracy bate de terço!”, conta Sebastião Nery, mais tarde um antijuracisista enragé. “Mário virou herói e foi eleito com uma votação extraordinária”.

Em 1º de abril de 1964, ao saber da ocupação da refinaria de Mataripe, Mário Lima foi cobrar notícias precisas do governador Lomanto Júnior sobre a prisão dos trabalhadores. Na escadaria do Palácio da Aclamação, travou um diálogo áspero com o secretário de Segurança Pública, Francisco Cabral, que já estava alinhado com os golpistas e ignorava as ordens de Lomanto.

Cabral mandou prender o deputado federal, abrindo uma crise de autoridade no governo. Correu o boato de que Lima teria ameaçado “explodir” Mataripe. Essa história contraria tanto o ar cordato do sindicalista como a impossibilidade tática da ameaça. Depois de ser lançado num poço solitário no colonial Quartel do Barbalho – um outro tipo de poço, embora também sujo de óleo -, viu a saúde minguar. Numa masmorra idêntica, estava o companheiro Nery.

Sequestrado, Mário aterrissou na Ilha de Fernando de Noronha – onde já estivera em degredo o jornalista Helio Fernandes -, convertida em cárcere dos inimigos do regime militar. Nunca chegou a trocar palavra com o pequenino Seixas Dória (o “réu sem crime”), mas interferiu pela transferência de Miguel Arraes. Alertou ao administrador da Ilha, o coronel Costa e Silva:

- Desculpe, coronel, mas vou dar um palpite. Tiraram o Seixas daqui. Sou jovem, estou sozinho, não tenho problema nenhum. Mas ficou o Dr. Miguel Arraes, um homem nacional, que já tem 50 e tantos anos. O senhor já pensou se ele tem um infarto? Se morre o Arraes? Por mais que o senhor diga que ele é um convidado do senhor, vão achar que ele foi morto em Fernando de Noronha…

Entre fumaças de charuto, o velho Arraes gostava de recordar esse espevitado conselho. Dali a dias o ex-governador pernambucano seria transferido para Recife – em seguida, o exílio.

Este é o Mário Lima público. Mas, que tipo! o homem dos bares.

Cassado, livre dos cárceres, ele viajou para São Paulo em 1965, disposto a comemorar o aniversário com os amigos Hélio Duque, José Wilson, Sebastião Nery, Domingos Leonelli e Nelito Carvalho, também escondidos na capital paulista. Destino: Bar Pilão, Arouche. Numa mesa do canto, tristíssimo, o cantor Carlos Galhardo (“com aquele cabelão de puteiro, mal pintado”, brinca Nery). Convidado de Lima, Wilson berrou, porreteiro: “Olha quem tá ali: aquele merda do Carlos Galhardo!”. Para evitar uma briga – e a chegada da polícia -, Lima ergueu a voz:

- Fora daqui! O senhor não tem dignidade para ficar em nosso meio!

Ali restaram os dignos, sorvendo caipirinhas. A namorada de Nelito, Marilu, era cantora do bar e atendeu ao pedido cavalheiresco de um trovador: emprestou seu violão para ele tocasse. Na terceira música, o desconhecido recebeu o abraço consagrador de Carlos Galhardo, e mais os aplausos da mesa dos subversivos. Empolgado, o cantor anônimo mandou servir uísque para os fãs. Ainda mais grato, sentou na mesa, sorriu e pagou a conta da noitada. A caminho de casa, Mário vomitou no táxi de um português. “Ou pagam a limpeza ou chamo a polícia!”, clamou o chofer. Uma furtiva cédula foi jogada no banco traseiro e todos os amigos sumiram nas ruas do Centro.

Repórter da Folha de S. Paulo, Hélio Duque decidiu pegar o jornal rodado na madrugada. Lá estava uma entrevista do cantor anônimo. Bem, este era seu segundo ofício. Durante o dia ele atuava como delegado-geral de Ordem Política e Social de São Paulo, cuja especialidade não era servir uísque, mas fazer cantar os inimigos do regime…

Outro Mário Lima numa mesa do Chez Bernard. Em 2006, num almoço, embalado por um vinho, levantou-se da mesa e… desapareceu. Corremos os olhos nas outras mesas – nem sinal. Na porta do restaurante, em Salvador, Mário reaparece: fazia uma sesta dentro do carro. Era a metade Coronel Reis que dormia, a evocar as tardes nas varandas do São Francisco.

Após duas horas de discursos de amigos, políticos e ex-sindicalistas, o líder petroleiro foi enterrado no sábado, 11 de julho, no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Nesse borbulhar de orações fúnebres, havia também o desejo de que Mário fosse dormir mais tarde.

Terra Magazine

11/05/2009

Os sujeitos da esquina

Os sujeitos da esquina

por José Ribamar Bessa Freire, no Diário do Amazonas (Extraído do blog do Azenha)

Discretos, anônimos, distantes dos holofotes, os ‘sujeitos da esquina’ acabaram aparecendo duas vezes na mídia, nessa semana. Primeiro, na fala do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, para quem os juízes, antes de tomar suas decisões, não devem ouvir o que diz ‘o sujeito da esquina’. Depois, na declaração do deputado gaúcho Sérgio Moraes (PTB–vixe, vixe!), do Conselho de Ética da Câmara, que afirmou: “Estou me lixando para a opinião pública”. Afinal, o sujeito da esquina e a opinião pública atrapalham as decisões no campo da Justiça e da Ética?

Gilmar Mendes acha que sim, que compromete a autonomia do Judiciário: “Não se dá independência ao juiz para ele ficar consultando o sujeito da esquina. O juiz tem o dever de arrostar a opinião pública em muitos casos. Do contrário, teríamos o linchamento como prática institucional”. Ora, se ele sabe muito bem que ‘arrostar’ (enfrentar, confrontar) é um verbo que o povo não conjuga, suspeitamos que sua fala difícil é para que o dito cujo sujeito da esquina não entenda o que está dizendo.

Quem arrosta quem

Acontece que o sujeito da esquina entendeu e arrostou o ministro. No dia 6, manifestações simultâneas foram realizadas em três capitais, incluindo Brasília, que é uma cidade sem esquinas, mas com muitos ‘sujeitos’. Em todas elas, pediram a renúncia do ministro e exibiram cartazes “Fora Gilmar Dantas”, numa alusão ao banqueiro trambiqueiro Daniel Dantas, a quem o ministro concedeu dois habeas-corpus em menos de 48 horas, contrariando decisão de juiz de primeira instância.

Centenas de velas foram acesas “por uma nova luz no Judiciário”, iluminando a Praça dos Três Poderes, em Brasília, a Praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte, e a Avenida Paulista, em São Paulo. As fotos, publicadas no site www.saiagilmar.blogspot.com, mostram um ato político inédito no Brasil: uma manifestação contra um representante do Poder Judiciário. Ou seja, o ministro não pode mesmo ouvir o sujeito da esquina, porque nesse caso terá que pedir o boné e se pirulitar.

Com ironia, Gilmar Mendes respondeu às críticas feitas, há duas semanas, pelo seu colega, ministro Joaquim Barbosa, que o acusou de destruir a imagem do Judiciário, sugerindo que saísse às ruas para saber o que pensam de suas atitudes: “Vamos ouvir as ruas para saber o que o povo pensa sobre o STF conceder ou não habeas-corpus? Ou os nossos blogueiros?” – pergunta ele, confundindo alhos com bugalhos.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Gilmar Mendes tem razão quando defende a independência do magistrado, que não deve ceder ao grito. Deve examinar os autos, os fatos, para decidir o que é justo. No entanto, sua independência deve se manifestar não apenas em relação ao grito popular – como quer o ministro – mas sobretudo ao sussurro e ao cochicho dos salões, dos gabinetes, dos palácios. E é aqui que o fiofó da cotia assovia – hic culum cotiae sibilare – como dizia o saudoso Orozimbo Nonato.

É que Gilmar Mendes perde a razão, quando rejeita os sujeitos da esquina, a quem se refere de forma depreciativa, mas cala quanto ao outro segmento da opinião pública, com quem convive, formada por banqueiros, empresários, fazendeiros, donos de terra e do agronegócio. O presidente do STF não freqüenta os mesmos lugares que os sujeitos da esquina, mas participa de coquetéis e comilanças com os poderosos. Nós, sujeitos da esquina, desconfiamos que ele ouve esse mundo, no qual circula.

Um grupo de 42 juízes e ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) teve passagens, hospedagens e refeições pagas pela Febraban – Federação Brasileira de Bancos, para participar de um congresso promovido em um hotel cinco estrelas, em Salvador (BA), durante o feriado prolongado de 21 de abril, incluindo as despesas dos respectivos cônjuges. Será que essa promiscuidade lhes permite arrostar esse segmento da opinião pública? Onde fica a independência?

Arrostar o sujeito da esquina é muito fácil, qualquer um arrosta diariamente, cuspindo, pisoteando, humilhando. O sujeito da esquina – coitado! – é um pé rapado. Quero ver o cabra macho que tem coragem de arrostar o sujeito do salão, como fez o juiz Fausto De Sanctis, que mandou duas vezes para o xilindró o trambiqueiro Daniel Dantas. O magistrado da operação Satiagraha – esse sim – foi independente, porque se limitou aos autos. Quando decretou a prisão do banqueiro delinqüente, o sujeito da esquina não havia ainda se manifestado. Por que Gilmar não arrosta a opinião dos banqueiros?

A mãe do recruta

Embora a vara da Justiça não deva ser dobrada pelo grito, não é pecado escutar o clamor popular, num crime que brada aos céus e clama a Deus por vingança, como o de Daniel Dantas. O banqueiro – que é acusado de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, gestão fraudulenta, sonegação e evasão de divisas – subornou um policial, tudo filmado, documentado e ainda por cima afirmou em alto e bom som que se o seu processo chegasse ao STF, ele tiraria de letra. Tirou de letra, indignando a sociedade e consolidando uma sensação de impunidade revoltante.

É para isso que serve o clamor popular. Não significa se subordinar ao sujeito da esquina, que – é verdade – não conhece os autos, nem os labirintos da lei. Não se trata, portanto, de “consultá-lo” tecnicamente. Mas quando ele se manifesta, é bom ouvi-lo, nem que seja para estabelecer um diálogo convencendo-o quando estiver errado. Isso não compromete a independência do julgamento. Afinal, o Direito não é uma ciência exata, o juiz não é infalível, a lei permite várias interpretações sobre a mesma questão e o juiz tem de ter responsabilidade social, não pode interpretar sempre contra o sujeito da esquina.

Se o ministro Gilmar lesse as mensagens que circulam na internet, arrostando-o, entenderia que a sociedade brasileira não acredita na independência do Poder que ele preside. Por causa dele, que se comporta como um político e não como um juiz, como afirmou o jurista Dalmo Dallari. A nossa esperança está no negão Joaquim Barbos a, que chutou corajosamente o pau da barraca e expressou o sentimento de todos nós contra uma justiça classista.

Quem concorda com Gilmar Mendes é o deputado Sérgio Moraes, que vai relatar no Conselho de Ética da Câmara o processo do deputado do castelo, Edmar Moreira (vixe, vixe!), acusado de sonegar impostos e de roubar a contribuição previdenciária dos funcionários de sua empresa. Moraes declarou que vai agir de forma “independente” e que está se “lixando para a opinião pública”. De saída, antes de ouvir as partes, ele já absolveu o acusado, seguindo sua própria consciência.

Como se formou a consciência dele? Segundo a revista ‘Veja’ do ano passado, Moraes e sua mulher, Kelly, foram denunciados por lenocínio, favorecimento de prostituição e receptação de jóias roubadas. Em 1990 foi até condenado a três anos e meio de prisão, mas a sentença foi posteriormente cancelada, por quem, como ele, não ouve o sujeito da esquina. Podemos confiar em sua consciência e em sua independência para julgar?

O ministro e o deputado seguem a mesma lógica da mãe do recruta, cujo passo não estava sincronizado com o resto do batalhão: “todo mundo está marchando errado, só meu filho está certo”. Estão errados o ministro Joaquim Barbosa, o juiz Fausto De Sanctis, o jurista Dalmo Dallari, os sujeitos da esquina, a opinião pública, as torcidas do Flamengo e do Corinthians. Só Gilmar Mendes e Sérgio Moraes estão com o passo certo. Eles não possuem desconfiômetro.

Quando Sancho Pança se tornou governador da Ilha, Dom Quixote lhe deu alguns conselhos. Para fazer justiça – disse Quixote – procura ser modesto, te observa e te conhece, para não inchares como o sapo que queria igualar-se ao boi. Sê humilde e não desprezes os pobres. Ele conclui com uma recomendação sobre a relação do juiz com os sujeitos da esquina – ‘los muchachos del barrio’ – e os sujeitos dos salões, que apresentamos aqui em tradução livre do espanhol:

“Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, mas não mais justiça, do que as versões do rico. Procura descobrir a verdade que se esconde detrás das promessas e dos brindes do rico, da mesma forma que detrás dos soluços e das lamúrias do pobre. Mas, se por acaso, dobrares a vara da justiça, que pelo menos não seja em conseqüência do peso do suborno, mas sim do da misericórdia”.

10.05.2009 – Diário do Amazonas

07/05/2009

Chuva faz Salvador viver dia para esquecer

Vitor Hugo Soares
Especial de Salvador (BA), para Terra Magazine

Como aquele passageiro da chuva do clássico filme com o durão Charles Bronson, o ministro do Turismo, Luiz Barreto, escolheu o pior momento possível (ou teria sido o mais apropriado?) para visitar Salvador. Desembarcou no olho do temporal de terça-feira (5), que quase acabava com tudo na cidade que, até bem pouco tempo, era “vendida” nos folhetos de propaganda turística do País e do resto do mundo, como “a terra do sol o ano inteiro”

Que contraste! O que o ministro viu foi uma terra cinzenta, ar carregado, praticamente arrasada por sete horas de chuvas. Precisou mudar drasticamente os planos do passeio, até por falta de condições para circular pelas alagadas ruas de um lugar na vizinhança do caos, a não ser de helicóptero, como optou o governador Jaques Wagner, para ver as zonas de desastre.

O ministro mudou até o plano de almoçar no Palácio Thomé de Souza, contemplando a privilegiada vista da Baía de Todos os Santos que se descortina do gabinete do prefeito, em companhia de João Henrique Carneiro e do presidente do PMDB baiano, Lúcio Vieira Lima, irmão do ministro Geddel.

Aliás, o próprio prefeito precisou deixar o prédio de conservação precária principalmente pelo desgaste de suas calhas – como informa a matéria da repórter Patrícia França, hoje, no jornal A Tarde -, invadido ontem pelas águas do temporal.

Uma Salvador em dia para esquecer, ou ficar para sempre na memória, como seguramente acontecerá com a maioria dos habitantes da cidade.

07/05/2009

Cadê as velas do STF

Recomendo a leitura do blog de Eduardo Guimarães, Cidadania.com onde ele faz uma análise sobre a cobertura de fatos políticos relevantes. Ou melhor, pela não cobertura, ou cobertura apenas dos fatos e versões que interessam aos donos do poder.

Para os grandes jornais e emissoras, a manifestação de ontem, na frente do STF, aparentemente não existiu. No post abaixo, transcrevo post do blog do jornalista Leandro Fortes, sobre este movimento.

Leandro Fortes responde a processo proposto pelo Ministro Gilmar Mendes, por ter publicado na revista Carta Capital duas matérias sobre a atuação do presidente do STF em Diamantino, MT, e no Instituto Brasiliense de Direito Público – IDP, de sua propriedade.

Para variar, nenhum órgão da imprensa, à não sor os blogs, repercutiram as matérias. Basta visitar o site da instituição para verificar a participação de Mendes, e verificar que 6 outros ministros do supremo também lecionam naquela instituição, que tem vários contratos sem licitação com órgãos públicos diversos.

Pode não haver ilegalidade, e provavelmente não há. Mas percebo um forte conflito ético nesta situação. O IDP certamente não é o único centro de excelência em ensino do Direito, para se justificar contratações em licitações junto a órgãos públicos.

07/05/2009

Brasília, inesquecível – do blog “Brasília eu vi”, por Leandro Fortes

Não deixa de ser curioso constatar o clima de Baile da Ilha Fiscal que cercou, literalmente, a impressionante manifestação popular levada à cabo na noite de hoje, 6 de maio de 2009, na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal, aqui em Brasília. Logo cedo, o ministro Gilmar Mendes, alvo dos manifestantes, mandou colocar cercas em todo o perímetro do STF com a inacreditável desculpa de que seria preciso preservar o ambiente para um evento noturno, a apresentação de um anuário jurídico publicado pelo jornalista Márcio Chaer, do site Consultor Jurídico. Chaer e Mendes são amigos, mais que amigos, fraternos aliados empenhados em uma simbiose ideológica travestida de relação jornalística. Difícil é definir quem é a fonte de quem.

Quis o destino que a tertúlia do Conjur, montada para dar um ar de naturalidade a uma noite de protestos anunciados, surtisse um efeito perversamente oposto, alçada que foi a farra a pano de fundo perfeito para as luzes de milhares de velas acesas em frente ao STF. Graças ao convescote, os manifestantes puderam perceber a presença física, ainda que à distância, de Gilmar Mendes. Àquela altura, o presidente do STF já estava amargamente arrependido de ter apostado no fracasso da manifestação. Mais cedo, ele havia relegado o movimento a uma ação de inimigos dos quais, em mais uma de suas declarações infelizes, disse se orgulhar. Com Mendes na mira, vieram as palavras de ordem, gritadas a pleno pulmão. Ele ouviu.

Coisa linda é uma manifestação noturna com 10 mil velas. Pelo menos duas mil pessoas passaram pela Praça dos Três Poderes para participar, olhar ou só constatar o que estava acontecendo em meio àquela alegre balbúrdia de luz. Os carros normalmente indiferentes ao rush da capital federal buzinavam, em apoio aos manifestantes. Pessoas desciam dos ônibus para prestar solidariedade. Ele viu.

Que ninguém se engane. Esta noite, algo se quebrou em Brasília.

07/05/2009

O Supremo…

Essa manifestação é decorrente da reação do ministro Joaquim Barbosa, que acusou o ministro Gilmar Mendes de destruir a imagem do Poder Judiciário junto à opinião pública em geral, e á tentativa de boa parte da mídia em proteger o presidente do STF e a tentativa de se destruir a imagem de Barbosa.

Fonte: Conversa Afiada

Fonte: Conversa Afiada

Fonte: Coversa Afiada

Fonte: Coversa Afiada

Fonte: Conversa Afiada

Fonte: Conversa Afiada

Trata-se de um momento interessante na nossa história. Apesar da aparente calmaria, tem havido uma série de conflitos entre os poderes estabelecidos na república, com origem no STF.

A chamada do chefe de um poder às falas, declarações sobre inoperância de outro poder, e a desqualificação do Ministério Público no seu papel de fiscalização da PF. São todos temas que tem sido pouco debatido pela mídia. Amplamente divulgado, mas pouco debatido. O debate tem ocorrido principalmente nos blogs, principalmente os blogs posicionados mais à esquerda do espectro político.

Eu particularmente creio que Gilmar Mendes está metendo os pés pelas mãos. Nenhuma das acusações sobre Estado Policialesco, grampos descontrolados realizados pela PF, MP e justiça federal foram comprovados. Muito pelo contrário. Os números divulgados foram muito aquém do que anunciado e divulgado, os grampos ao STF nunca foram comprovados, e o próprio presidente do STF já admitiu que o relatório que gerou tal acusação não era definitivo, o grampo da conversa com o Senador Demóstenes nunca apareceu (nem nas perícias, nem a cópia que levou a revista Veja a publicar a matéria), nada.

A denúncia de um Estado Policialesco é gravíssima. A denúncia de que um Delegado da PF grampeou ilegalmente autoridades constituídas a mando do chefe da Agência Brasileira de Inteligência é mais grave ainda. Contudo, nada foi comprovado.

Agora, as provas coletadas de forma legal, autorizadas pela justiça, trabalhada dentro de um sistema integrado de inteligência previsto na legislação estão sendo criticadas como exageradas, inconstitucional e tantos outros adjetivos que se possam ser colocados para descrever a situação.

Viva o Brasil.

07/05/2009

Viva a Microsoft

Pessoal, este post é para esclarecer a parada grande de mais de um mês…

Tenho utilizado preferencialmente o Google Chrome, como navegador da internet. O Chrome parou de funcionar com o WordPress, o site que hospeda este blog. Não conseguia atualizar com nenhum post e pedi para o administrador do site verificar o problema. Falaram que já tinham consertado e nada…

No fim das contas, dei o braço a torcer e tentei usar o Internet Explorer… funcionou…

Vamos voltar, então, à carga com a boa e velha MS.

Oh raiva… Muitos sites são construídos pensando apenas na MS. Os usuários de outros navegadores que se lixem e não podem utilizar diversos recursos. Não creio que isso seja culpa da MS, mas sim de quem desenvove os sites. Acho que eles não atentaram para o fato de que a MS está perdendo espaço. Hoje 25% dos navegadores já são com software livre.

Mas a vida caminha…

Vou ver se recupero alguns temas importantes que deixaram de ser comentados, como o escândalo das passagens aéreas, o bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, no STF, operação Satiagraha, a cobertura da mídia sobre a doença da ministra Dilma e sobre o seu passado.

Temos muito pano pra manga.

Ao trabalho.

06/05/2009

As Velas da Justiça

Lá dentro, o lustroso Márcio Chaer falava e tentava fazer gracinhas, mas a platéia pouco se interessava. As paredes e o piso de mármore do Salão Branco do Supremo Tribunal Federal reverberam tudo, do tilintar dos copos às conversas no pé do ouvido. Tudo, menos as palavras de Márcio Chaer, abafadas pela reverberação maior dos que não tinham interesse no que estava sendo dito, apesar do transbordante de orgulho do “editor” pelo lançamento de mais uma edição do seu Anuário da Justiça.

Pouca gente, portanto, ouviu Chaer dizer que há juízes que gostam de aparecer e se tornam celebridades, mas não têm o respeito da comunidade jurídica – ou coisa parecida. Quem ouviu Chaer mas não ouve “as ruas”, ficou na dúvida se ele se referia a Fausto de Sanctis ou a Gilmar Mendes – de pé, ao fundo, como um dois de paus e a eterna cara de… bem, aquela cara que todo mundo conhece. Nem tão poucos, porém, perceberam a gafe do jornalista, que encerrou sua longa fala com um “Vamos ao coquetel!”, quando ainda faltava Gilmar falar. Felizmente, o não menos lustroso Gilmar falou pouco, protocolarmente, com sua indefectível voz de ovo na boca. O clima, a essa altura, já era irreversivelmente de “vamos ao coquetel”.

Lá fora, muitas velas acesas, muitas bandeiras (várias do PSOL), faixas de louvação a Joaquim Barbosa (que, naturalmente, não estava presente lá dentro), muito apito e muito barulho. Difícil precisar quantas pessoas participavam da manifestação – mas o barulho era alto. Claro que no Salão Branco ninguém ouvia nada (afinal, não se ouvia nem mesmo o que se falou lá dentro). Mas bastava pisar do lado de fora para que “a voz rouca das ruas” se fizesse ouvir. “Fora Gilmar” e “Renuncia, renuncia” eram as principais palavras de ordem.

Como lá dentro estava abafado e quente, muitos convidados preferiram ficar do lado de fora. Optaram pelo som das ruas, embora não tivessem descido a rampa e atravessado o isolamento. Sorrisos amarelos, risinhos irônicos, comentários à boca pequena.

Gilmar, mais uma vez, não foi às ruas. Renato Parente também não. Mas Dona Guiomar, primeira-dama, saiu para fumar com as amigas. Viu e ouviu, com ar blasé, o apitaço, até que alguém a chamou e ela se desculpou com o grupo porque “o Gilmar está me chamando”. Apagou o cigarro e voltou ao salão. Vários fotógrafos fizeram o caminho inverso: deixaram o salão e desceram para a rua. Os manifestantes reproduziram, no alto-falante, o bate-boca entre Gilmar e Joaquim (sim, este áudio existe!). Depois, deram-se as mãos e entoaram o Hino Nacional. Alguns discursaram, e logo recomeçava o “Fora Gilmar”.

Curiosamente, as paredes do STF não reverberam só por dentro. Os vidros e o mármore ecoam o que é gritado na praça, engrossando involuntariamente o coro. Quem estava descia um pouco a rampa, um pé lá outro cá, tinha a nítida sensação de que, também lá dentro, o que se gritava era “Renuncia! Renuncia!”.

06/05/2009

Sobre a Satigraha

O noticiário sobre a operação tem me estarrecido. Não pelas denúncias contra o delegado Protógenes, pois se por um caso ele agiu de forma incorreta, deverá ser processado com os rigores da lei. O que me deixa perplexo é a forma como a grande imprensa tem agido. Simplesmente deixaram de lado o centro da questão, que são as denúncias sustentadas por grampos legais, devidamente autorizados pela justiça federal.

O pior em relação às acusações ao delegado, é ele ter utilizado de agentes da ABIN em excesso. Ora, o SISBIN permite essa atuação conjunta, e a recente decisão da justiça federal sobre essa articulação, que foi considerada dentro dos parâmetros legais não teve a devida repercussão na mídia. Sobre isso digo mais, uma agência de inteligência que não pode fazer escutas telefônicas nas suas investigações, é mais um reflexo negativo que a ditadura deixou em nós, brasileiros. Temos medo que o Estado faça o seu papel.

Ainda, o achaque constante ao Juiz De Sanctis e ao Procurador De Grandis, por agirem dentro da lei. As denúncias se dão em torno de excessos, como se fosse fácil comprovar crimes financeiros. Acho que esta situação retrata claramente os valores que a nossa sociedade prega como corretos, a Lei de Gerson, e a impunidade contra ricos e políticos. Nada de algemas, pois são humilhantes.

Humilhante é roubar e aceitar que quem cometeu o delito seja tratado como vítima.

06/05/2009

A ponte de Salvador

Vi ontem, no Terra Magazine, entrevista de João Ubaldo Ribeiro sobre a construção de uma ponte entre Salvador e a ilha de Itaparica. Gosto muito de João Ubaldo, mas discordo completamente dele. Quer dizer, acho que ele se equivocou na sua linha de raciocínio.
Eu acho que a ponte não deve ser construída com recursos públicos. Por mais benefícios que a construção dessa ponte possa trazer ao Estado e a Salvador, em particular, não creio que seja a prioridade do governo construir tal empreendimento.
A ponte deve ser construída pela iniciativa privada, pura e simplesmente, com a respectiva concessão de utilização para que a empresa possa recuperar seu investimento.
João Ubaldo ainda diz, ainda, que a ponte iria custar 10 vezes mais que o R$ 1,5 bi sugerido pelo governo, segundo engenheiros amigos que ele consultou. Bom, a ponte com uma estrutura de 36 quilômetros sobre a baía de Hangzhou custou o equivalente a quase R$ 3 bilhões, segundo matéria publicada no O Globo e, 01/05/2008. Ainda, a Ponte Vasco da Gama, em Lisboa, com 17,2 Km de comprimento, não custou nada aos cofres públicos portugueses, que atuou apenas como financiador do empreendimento, e custou € 897 milhão, bem inferior aos R$ 15 bi estimados por João Ubaldo. O valor do pedágio é hoje algo em torno de € 2,25, ou seja, perto de R$ 7,00 (www.lusoponte.pt/).
Ou seja, que venha a ponte, mas construída pela iniciativa privada.